Dicas para o retorno às aulas presenciais

Retorno presencial às aulas – dez dicas para professores e gestores educacionais

Max Franco (Professor-Mestre)

Há perguntas que não querem calar, quando se fala do retorno ao modo presencial das aulas no Brasil. Não se sabe muito o “quando” e o “quem” nem muito o “como”. Entretanto, o porquê, todos sabem.

Alguns governadores de estados acenaram para os meses de julho, agosto ou setembro. Nenhum pareceu realmente seguro sobre esse período de retomada. Alguns falam que os grupos que, incialmente, devem voltar, são os alunos do ensino médio, porque são aqueles que teriam mais autonomia para se protegerem. Outros defendem exatamente o contrário e que deveriam ser os alunos de ensino fundamental 1, porque são menos versados em tecnologias e plataformas educacionais. Por isso, teriam maior necessidade de retorno ao presencial.

O “como” tem a ver com todos os cuidados que serão necessários para viabilizar esse recomeço com o máximo de segurança. Há países da Ásia, da Oceania e da Europa, nos quais a reabertura das escolas se deu de forma vagarosa ainda no mês de maio. Essas escolas adotaram protocolos baseados em diretrizes de órgãos internacionais e contextos locais. São nesses protocolos que os sistemas educacionais de todo o mundo, atualmente, se inspiram para as respectivas retomadas.

Quando falamos, entretanto, do “porquê”, a resposta é quase uníssona: precisamos voltar, porque o ensino remoto ainda não dá conta de preencher todas as lacunas deixadas pela sua prática. Crianças e adolescentes, afinal, não precisam apenas de aulas e atividades pedagógicas. A necessidade de interação e movimento é essencial para esse grupo. Além disso, há os deméritos provocados pela falta de estrutura das famílias de alunos de escola públicas, muitas com dificuldades de acesso à internet e, também, sem a ambiência residencial para que os estudantes consigam obter resultados com o homeschooling obrigatório ao qual todos foram submetidos pela pandemia.

Precisamos, ainda, levantar a questão da formação dos professores para a manutenção dessas aulas remotas. Antes do confinamento, apenas 8% dos professores brasileiros já tinham ministrado alguma aula mediada por instrumentos tecnológicos. Houve, decerto, grande esforço dos professores para compensar essa carência de habilidade, porém o que se verifica é está longe de se dizer que todos os alunos desfrutaram de iguais condições e de aulas realizadas com a qualidade necessária para a consecução de aprendizagens consistentes.

Todavia, sabe-se que a prioridade atual está centrada na segurança desses alunos e que, depois, vamos correr atrás dos prejuízos causados pelo isolamento.

Sobre a questão referente à segurança, os gestores de educação, profissionais da saúde e governos ainda estão definindo os protocolos para a retomada das aulas presenciais. A questão, afinal, não se resume apenas aos cuidados sanitários. Há outras facetas desse problema que precisam ser tomadas com seriedade e, por isso, sugerimos algumas iniciativas para minorar as possíveis consequências de uma retomada breve e para nortear as práticas de gestores educacionais e professores. Tais como:

  1. CUIDAR DO ESTADO EMOCIONAL – A primeira atitude que toda escola deveria tomar, desde antes da retomadas das aulas presenciais, é a de acompanhar os possíveis efeitos psicológicos oriundos do confinamento e da quarentena. Retomar o modelo presencial – ainda durante a pandemia – pede mais do que cuidados sanitários. Foram meses absolutamente incomuns, repletos de muita tensão, medo e insegurança. Portanto, a repetição das restrições de contato social dentro do ambiente escolar pode gerar impactos ainda maiores no estado emocional dos alunos. Como os alunos vão dar conta de manter a concentração para a aprendizagem em um contexto como este? A orientação é que as estratégias de retorno às aulas presenciais sejam pensadas com um apoio robusto de outras áreas, como a psicologia e da orientação escolar. O ideal é que os alunos tenham oportunidades frequentes de se colocarem, de manifestarem suas emoções e exporem suas apreensões, mas, obviamente, com a condução de profissionais preparados para estas socializações. Para isso, tais atividades devem ser fundamentadas nas competências presentes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), tais como autocuidado, empatia e cooperação e responsabilidade e cidadania.
  • DEFINIR OS PRIMEIROS PASSOS – Se planejar é uma das palavras de ordem de toda Casa de Educação, nesta condição de pandemia e de retorno às aulas presenciais, planejar é uma palavra que deve ser esculpida nas paredes da escola. O planejamento deve ser acurado até as casas decimais. Não há ações ou possibilidades que não devam ser previstas dentro da escola para salvaguardar a saúde de todos os envolvidos neste processo de retomada. É essencial, portanto, pensar em todos os atores relacionados ao cotidiano da escola: pais, profissionais e alunos. Como vai ser o recreio? Como deve funcionar a cantina? Como serão as aulas de educação física? Não há detalhe que deva passar em vão. Em outras palavras, o retorno às aulas presenciais urge a manutenção de cuidados milimétricos.  

3.  PROTOCOLOS SANITÁRIOS – Algumas ações parecem ser já consenso: salas de aula, pátio, biblioteca, banheiros, laboratórios, cantinas… todos devem ser demarcados para respeitar o distanciamento e higienizados continuamente. Não pode haver aglomerações. As séries devem voltar em horários e dias escalonados, limitando a circulação de pessoas na área externa e no interior da escola. Nos intervalos, mesmo depois de meses sem encontrar fisicamente os colegas, não pode haver nem abraços, nem quaisquer contatos próximos. A volta às aulas, portanto, deve ser gradual e escalonada. Uma retomada escalonada significa que, de início, a abertura da escola será limitada a alguns dias da semana e a séries ou níveis de ensino definidos, com horários de entradas, recreios ou intervalos, uso da cantina e saída diferentes entre as turmas. Checagem contínua, desde a entrada da escola e com frequência. Todos os alunos devem ter as temperaturas corporais medidas. Quem está com suspeita de febre deve ser enviado para casa. As mochilas, higienizadas. Os estudantes devem lavar as mãos e, depois, passar por tapetes que desinfetem seus sapatos. Ao chegarem à sala de aula, as carteiras devem ser dispostas com uma distância mínima de um metro e meio. As janelas devem ser mantidas sempre abertas. Todos os alunos devem usar máscaras, as quais precisam ser trocadas a cada duas horas. Os funcionários e professores devem supervisionar a lavagem das mãos dos alunos com frequência.

4. ADEQUAR PLANOS PEDAGÓGICOS – É importante que sejamos claros e que consigamos ver o quadro atual com nitidez. O fato é que aquele currículo pensado anteriormente para o ano de 2020 também foi contaminado pela covid e respira por aparelhos. Podemos salvar alguma coisa, mas não tudo. Precisaremos, portanto, tomar uma atitude que os professores, geralmente, odeiam. Precisaremos cortar conteúdo. O problema disso é que muitos professores costumam considerar que tudo é pré-requisito para o que virá depois e que, por isso, os alunos precisam saber, com profundidade, sobre o capítulo 1 para compreender o 2. O que deve ser dispensado? Qual a essência que deve ficar? Não daria para se trabalhar tudo?A verdade é que tudo é muita coisa mesmo em períodos ordinários, ainda mais durante uma pandemia de ordem mundial. Os educadores, então, precisarão delimitar conteúdos e desenvolver o conhecimento apenas do que é fundamental para que o aluno siga adiante. As aulas irão até quando? Vão existir férias ou pausas? As escolas terão a coragem de impor reprovações em 2020? Como será o próximo ano? Vamos tentar compensar as lacunas deixadas em 2020? Qual será a consequência de tal medida? Não iremos acumular muito conteúdo para os anos subsequentes? Não seria uma excelente oportunidade para revermos essas grades curriculares tão inchadas há anos?

5.  REALIZAR AVALIAÇÃO DIAGNÓSTICA – Será necessário se fazer uma avaliação diagnóstica para verificar os diferentes estágios de aprendizagem nos quais os alunos se encontram. Essa avaliação deveria servir apenas como um aferimento, como um boletim de referências e, não, com o intuito exigente ou de “punição”. Esse processo será muito difícil para aquelas escolas que se definem como “conteudistas” e “competitivas”. Elas podem confundir todo o processo e encarar essa proposta como uma sugestão “jogo amistoso” comprometendo tudo que foi feito durante os meses de isolamento e tensionando ainda mais o estado psicológico dos alunos. Em outras palavras, nesse momento crítico no qual todos estão inseridos, pais, alunos e professores, o importante é manter a precaução em cada passo, sem esticar demasiado a corda, mas, também, sem deixá-la muito frouxa.

6. UTILIZAR METODOLOGIAS ATIVAS – É verdade que toda e qualquer aula nesse período de pandemia está sendo mediada por tecnologias e, por isso, parecem ser aulas modernas. Não são. São aulas palestradas, convencionais, apassivadoras em modelo remoto. Seria uma grande oportunidade para as escolas fazerem uso de metodologias ativas, mas não o fazem, seja porque não sabem fazê-lo, seja porque têm medo de inovar. Storytelling, estudo do meio, PBL, gamificação, aula invertida, cultura maker… há inúmeras metodologias, cada uma mais atual, contextualizada e atraente aos alunos. Por que não planejar a realização de um grande projeto com a participação e protagonização dos alunos? Todo mundo ganharia com tal iniciativa. Inclusive os pais, decerto, participariam, colaborariam e verificariam o peso pedagógico que um bom projeto traria para os seus filhos. A verdade é que as escolas perdem uma grande oportunidade de fazer uma Educação criativa e envolvente. É uma lástima e um desperdício.

7. FORMAÇÃO DE PROFESSORES E DEMAIS PROFISSIONAIS – É senso comum que os professores foram – e têm sido – alguns dos heróis nessa longa jornada do corona-vírus. Até antes da pandemia e da suspensão das atividades presenciais, apenas 8% dos professores já tinham ministrado alguma aula fazendo uso de plataformas virtuais tecnológicas. Em pouco tempo, muito conseguiram se adaptar e, hoje, todas as aulas que existem, ocorrem de tal forma, utilizando o computador, aplicativos, meios tecnológicos. Isso é louvável. Os professores, de maneira geral, conseguiram – em prazo recorde – se atualizar. A questão é: E agora o que fazemos com isso? Até onde iremos? Quais são as pautas e necessidades? Em outras palavras: qual é o plano? É praticamente uma unanimidade que a retomada das aulas deveria ocorrer o “pelas pontas” – educação infantil e terceiros anos. Na sequência, deveriam vir as turmas de fim de ciclo, como o nono ano do ensino fundamental e daí por diante, uma a uma. Mas o que se espera dos professores? Há algum consenso? As escolas públicas estão trabalhando de um jeito. As privadas, de outro. O estado do Ceará tem um projeto. São Paulo, outro. E agora? Já sabemos que não dá muito para se esperar orientações do MEC. Então, o que fazer? São essas decisões que estão no colo dos gestores escolares. Não são fáceis e nem há muitas referências a seguir. O problema é que não há nem remédio nem vacina no mercado para os efeitos do covid 19 em nenhum setor, menos ainda na Educação. Ninguém disse que seria fácil.

8. COMUNICAÇÃO COM OS PAIS – Algumas escolas estão fazendo uma consulta aos pais com o intuito de entender a opinião dos responsáveis sobre o retorno ao modo presencial. Muitos pais têm manifestado pouca motivação de enviar os seus filhos para as respectivas escolas. Há um vírus mortal ainda à solta. Essa falta de motivação é, portanto, bastante compreensível. Entretanto, muitos pais não têm como deixar seus filhos em casa, porque muitos precisam voltar aos seus trabalhos. Isso se chama “dilema”! O papel da escola é fornecer todas as informações sobre os procedimentos necessários para esse retorno. A escola precisa se comunicar de forma ampla e clara usando todos os canais possíveis. Não cabe a escola, porém, tomar decisões no lugar dos pais, mas se preparar para a retomada e oferecer outras modalidades para aqueles pais que não se sentirem seguros de enviar seus filhos para as aulas presenciais.

9. ENSINO HÍBRIDO – Nos meses de isolamento, o sistema adotado tem sido, geralmente, o das aulas remotas, com aulas síncronas e assíncronas. Quando houver a retomada das aulas, é fundamental que exista a adoção de um modelo híbrido, que combine a educação remota com o ensino presencial. Os horários também devem ser alterados, com atividades parciais e adaptadas. O Ensino híbrido é estimulado para que as instituições estejam preparadas para potenciais fechamentos e para atender os alunos que não voltem com os demais, por algum motivo.

10. TUDO AO SEU TEMPO – É possível que alguns colegas não voltem às aulas em 2020. Afinal há aqueles com doenças que os inclua no grupo de risco e, claro, outros com pais que não sintam segurança para permitir que seus filhos retornem e corram riscos de serem infectados. Estes deverão se manter estudando em casa pela internet.  Em meio a tantas incertezas, pais, mães e responsáveis estão voltando ao trabalho, um movimento que pressiona a volta das escolas, já que a maioria dos pais não tem com quem deixar os filhos. A experiência de outros países demonstra que é possível que haja uma retomada, mas, se houver um agravamento da doença, será necessário um novo confinamento. A principal dica, portanto, pode ser resumida em três palavras:

– Protocolos, paciência e fiscalização.

Como fizeram os outros países?

Segundo a UNESCO, no auge mundial da crise, em abril, mais de 1,5 bilhão de alunos, em 195  países, foram afetados pela suspensão  das aulas presenciais. Foram, portanto, mais de 90% dos estudantes em todo o mundo que tiveram seus estudos comprometidos pela pandemia do covid-19. Até maio de 2020, entretanto, mais de 400 milhões de alunos já tinham voltado às atividades presenciais em mais de 40 nações. A Nova Zelândia, que é conhecida como o caso mais bem-sucedido de combate ao corona-vírus, teve o seu retorno às aulas de forma gradativa após zerar o contágio. Na Europa e países asiáticos, entretanto, o movimento foi ainda mais lento e cuidadoso.

A ONU, por sua vez, recomenda que a retomada ocorra de modo gradual, iniciando em áreas com menores taxas de transmissão e, por isso, com menor risco localizado. A ONU também sugere que os países desenvolvam uma estratégia que preveja a possibilidade de fechamento e reabertura das escolas em função das eventuais necessidades. No Brasil, é improvável, portanto, que esse retorno ocorra ao mesmo tempo em todo o seu grande território. A ONU ressalta a importância de se observar as consequências socioeconômicas, a possibilidade de acesso à educação remota, as condições de transporte, a capacidade de cada instituição proporcionar segurança aos alunos, entre diversos pontos.

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