A Escola da Felicidade

A Escola é um lugar onde se pode ser feliz?

Essa é uma questão que vem me incomodando ultimamente. Afinal, ao contrário do que se propõe nesse comentário, sabemos quanta infelicidade também pode ser semeada dentro das escolas. A verdade é que existem poucos lugares tão propícios para o cultivo do bullying e da intolerância como também para a destruição sistemática da autoestima como a Escola. Além de tudo, como atestam os defensores do homescooling, não é só coisa boa e útil que se aprende na escola.  Antes de qualquer coisa, faz-se necessário algum olhar sobre o título proposto.

Essa também é uma das principais questões levantadas pelas escolas da Escandinávia, inclusive com a inserção de disciplinas e atividades relacionadas à meditação e ao autoconhecimento.

Procurei algum outro termo para por no lugar de “felicidade”, entretanto entre todos que busquei, “prazer”, “empatia”, “satisfação”… Nenhum comunicava o que eu desejava transmitir. Então, ficou mesmo “Felicidade”, mais por exclusão do que por convicção. Mais por falta de vocabulário do que por excesso de crença.

A questão é que a escola costuma deixar uma lacuna quando tratamos desse aspecto tão importante e atual quanto é a busca pela felicidade.

Falo “busca” de forma bastante intencional, porque não há garantias quando se fala de felicidade.

Não há garantias por motivos óbvios. A felicidade não é ciência nem se replica em laboratório. Contradizendo os livros de autoajuda que atulham às livrarias, não há fórmulas para ser feliz.

Para ser infeliz, talvez haja. Basta crer cegamente em palestrantes motivacionais.

Ser feliz para um sujeito pode ser simplesmente torcer pelo flamengo em 2019. Para outro, é o casamento. Veja só, existe mesmo gente que acredita em felicidade no casamento! Mas, não há nada simples quando se fala em felicidade, porque ninguém tem garantias nem com o casamento nem com o flamengo. Desta forma, quem foi feliz um dia, pode permanecer infeliz por décadas.

Mas, a busca é uma atitude louvável. Buscar, afinal, não garante conseguir. Porém, não buscar – sim – quase garante não ter.

O fato é que a escola deveria também buscar a felicidade ou, na verdade, ensinar a buscar. Da mesma forma que busca ensinar oração subordinada, fração ou as capitais do planeta. Ouso, inclusive, dizer que a felicidade é mais útil do que a botânica inteira que estudamos na escola (e não aprendemos!).

Mas, como se ensina a “buscar a felicidade” no mundo da Educação?

A primeira coisa que devemos levar em consideração é que se houver esse objetivo, já é avanço. A preocupação de se tratar desse tema tão complexo é louvável.

O próximo passo, porém, é o complicado: o velho e comentado “como”.

Aqui podemos ter algumas pistas de como trilhar esse caminho. Mas está longe de ser um Google Maps.

A primeira seta aponta para um senso comum: não dá para haver alunos felizes sem professores felizes. E para termos profissionais satisfeitos, precisamos pagá-los bem, reconhecer o valor deles, formá-los e acompanhá-los continuamente. Sem esses fatores, a felicidade na escola é uma nau que naufraga logo na partida.

Em seguida, precisamos de um projeto compartilhado por todos da comunidade educativa: profissionais, país e alunos. Todos deveriam encampar essa iniciativa fomentando valores como respeito, empatia, responsabilidade e sustentabilidade. Difícil? Sim, mas não é impossível! A escola precisa se sentir dessa forma, como uma comunidade. Não deveria haver um clima de “nós contra eles” em uma escola que deseje ser feliz. Todos somos nós!

Nesse sentido, “ser feliz” deveria entrar no propósito e nos valores dessa escola. Deve fazer parte do seu Projeto Político Pedagógico e, principalmente, do planejamento e do calendário dessa escola. Se não, vira apenas palavras em um site. Vira a velha demagogia.

Uma escola, por exemplo, que queira seus pessoal feliz não pode viver exclusivamente em função de desempenho em exames. Avaliações não deveriam ter um fim em si mesmas, mas serviriam à construção de um processo contínuo e evolutivo. Performance acadêmica é fundamental para qualquer escola. Isso é indispensável. Entretanto, há escolas que vivem uma verdadeira “ditadura da prova”. Esse comportamento incentiva ansiedade, depressão, traumas e inúmeras fobias. Matemática e gramática são essenciais. Mas artes e esportes, são igualmente importantes.

Como propõe a BNCC, não é apenas a construção de conhecimento que deve ser trabalhada dentro da escola, mas também diversas habilidades socioemocionais.

É nesse ponto que devemos discutir um detalhe importante:

  • A aula tradicional, palestrada e expositiva ajuda a desenvolver habilidades socioemocionais?

A resposta parece clara.

Entretanto, se propusermos aos estudantes aulas mais participativas e colaborativas. Desafios contextualizados e criativos que explorem os seus gostos e talentos. Se oferecermos aos alunos ambientes mais agradáveis do que a sala de aula (oficinas, biblioteca, salas temáticas, aulas de campo, viagens pedagógicas …), é bem possível que eles se sintam mais estimulados a se envolverem nas iniciativas da escola.

A verdade é que as escolas precisam de práticas de metodologias ativas. Ninguém gosta de ficar à parte. Está na hora de a escola propiciar aos alunos oportunidades de cooperação e protagonização. O problema é que nem os gestores escolares sabem como fazê-lo nem a maioria dos professores. E, como ignoram os métodos, têm medo dos resultados. O medo, muitas vezes, é uma emoção paralisante.

A tarefa não é elementar para ninguém, todavia só há um jeito, caso a escola deseje trilhar esse caminho da instalação da felicidade dentro das suas paredes: correr riscos.

Tentativas geram acertos e erros. Entretanto, ficar do jeito no qual estamos também. A diferença é que, nesse campo socioemocional, estamos errando mais do que acertando.

Quem sabe, com novas estratégias e muita boa vontade, poderemos virar esse placar.

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