A escola confinada

Não foi só no campo da saúde que a pandemia demonstrou as debilidades do nosso mundo atual. A verdade é que não estávamos preparados para uma pandemia em área alguma, entretanto alguns países demonstraram uma capacidade de reação e adaptação bem melhor do que a brasileira. Na Educação, por exemplo, a nossa ação dificilmente poderia ser mais caótica e dissonante. Tanto que, depois de algumas semanas, o quadro geral nos empurra às lágrimas. Praticamente não houve aproveitamento algum de todo o tempo gasto. Temos desempenho pífio, professores desgastados e pais se aproximando da histeria.

O ensino remoto, seja por meio de aulas síncronas, seja por assíncronas, é uma utopia para as escolas públicas. Muitos dos alunos não têm nem sequer ambiente para assistir às aulas nem internet. As escolas particulares, por sua vez, não podem cantar vitória. O aparelhamento é melhor, mas a formação de professores deixa a desejar. Os métodos não poderiam ser mais equivocados, afinal a estratégia, de modo geral, é a de tentar replicar no online o que ocorria presencialmente, sem as vantagens do online e do presencial. É tentar fazer uma Educação tradicional por meio modernos. Em outras palavras, um anacronismo total, além de um grande desperdício de oportunidades.

É um desperdício porque, decerto, os pais entenderiam se a escola propusesse novas abordagens. As condições são outras, afinal. Mas, em vez de surfar a onda da inovação, os educadores das escolas particulares batem cabeça, perdidos, desnorteados, sem ação, tentando a toque de caixa mostrar trabalho a fim de justificar os pagamentos das parcelas mensais. O que revela esse processo de “cegos no tiroteio” é que falta repertório aos gestores, diretores, coordenadores pedagógicos e, claro, aos professores.

Demonstra-se, outrossim, que falta gestão em âmbito nacional. Afinal, a única medida do ministério da Educação foi exatamente não fazer nada, nem o óbvio que seria o adiamento do ENEM. O resultado desse pandemônio e dessa pandemia é a grave evolução de uma tempestade perfeita que caminha para desabar sobre as instituições de ensino e, por conseguinte, sobre cabeças dos estudantes brasileiros. 2020 será o ano perdido para a Educação brasileira? Caminha para isso!

Mas o que pode ser feito? Antes de tudo, a grade curricular precisa ser revista, e com urgência. O currículo é um organismo vivo que precisa ser solto dessa grade. Nada dentro de uma grade vive feliz. Todo mundo precisa entender que nós não vivemos em função do currículo. Na verdade, o melhor seria o contrário, que o currículo se adaptasse às demandas da sociedade.

Em seguida, é preciso se estabelecer um claro e contínuo canal de diálogo com as família. Semanalmente, o staff das escolas deveria fazer lives com os pais e responsáveis, com o objetivo de orientá-los e, claro, de obter feedbacks. Todos estamos aprendendo a coexistir nessa atual condição. Não há manuais nem precedentes recentes de tal convulsão social. É, portanto, compreensível que ocorram novas iniciativas, ajustes e aferimentos o tempo todo. É tentativa e erro até se acertar.

Solução mais viável? Rasgar a cartilha conservadora e trabalhar por meio de metodologias ativas realizando o que se chama comumente de Blended Education, ou ensino híbrido. Para tal, é necessário um planejamento acurado não só de cada segmento, mas de cada série. Os professores precisam se reunir e estabelecer novas estratégias mesclando metodologias, tais como Sala de aula invertida, PBL, storytelling, cultura maker, gamificação e, claro, tudo dentro de uma ideia de projetos interdisciplinares. 

Mas, como assim?

-Fazer um bolo pode ser um projeto? Claro que pode! Posso fazer links e livres associações com diversos conhecimentos ao fazer um bolo? Lógico que sim!

-Podemos pedir para os alunos criarem um canal no youtube para compartilhar descobertas e aprendizados obtidos na época na pandemia? Claro. Inclusive, desta forma, conseguiríamos desenvolver inúmeras competências sugeridas pela BNCC.

-Podemos trabalhar com estudos do meio realizando visitas virtuais a museus e galerias de artes? Por que não?

Há várias formas de fazer Educação nesse período de confinamento, mas, infelizmente, as escolas continuam apostando no modelo tradicional, o qual já estava em desuso e superado mesmo no período pré-covidiano, imagina hoje!

Por que, então, as escolas não ousam fazer algo de diferente?

Essa resposta não é simples. Mas – de maneira geral – há uma mistura de preguiça, covardia, inércia e, claro, falta uma mão cheia de repertório. Falta formação aos nossos formadores.

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